breve-brevíssimo ou aquele morre-não-morre

Na iminência do incêndio, o inominável já está à espreita. Uma precisão de dar vida a um que toca, machuca. E lá vai o demônio... embaixo da mesa, na ponta dos dedos, pelas costas, beiço colado ao ouvido esquerdo. De mãos dadas com o diabo, vou ao caminho de Deus. Re-bento. Antes de Maria cerzir as próprias fissuras, o batismo é consumado – a obra já nasce benzida pelo coxo. Fruto de vosso ventre maldito e da maldade de escrever. Ficamos assim: Deus é o significado, o diabo, o significante.

domingo, 7 de maio de 2006

 
"Recomendava aos iniciantes na difícil arte de escrever: 'menino, aterra esse mar e mata essas gaivotas. O resto demonstra alguma coisa apreciável. Quando você principiar a escrever, tome um trem aqui, viaje até a Central de 2ª classe, e terá assunto, não para um pequeno conto apenas, mas para um livro de muitas páginas'."
(João Antônio, acerca do conselho de seu mestre Lima Barreto)

Ao Felipe Jordani


Diferentemente do contato rotineiro com os transportes públicos, era tudo calmaria no ponto final da linha 457 Metrô Penha-Taboão Paraíso. Brisava. Culpa do horário. Pouca gente a andar por aí, pela cidade feia, àquela hora da tarde. Da estação suja, do instante morto, da vida cinza dos meninos encardidos e das pombas pedintes. Pois que, da sujeira, da sobre-vida, do pálido daquela espera de partida do ônibus, auferia-se alguma beleza. Invenção, na certa, daqueles que se habituaram a ver poesia em tudo. Gatos pingados que éramos, pausávamos a vida ali, sentados no assento gruda-gruda, olhando o nada que eram aquelas quatro horas vespertinas. Um fio de vida escapava d’alguma respiração - notada em decorrência de um suspiro perdido -, do trec-trec de uma embalagem de salgadinho ou dum toque-susto de celular. Era assim. Olhares infinitos, perdidos n’algum pensamento vogante para além do vidro fosco, ensebado. Pensamentos suspensos que conversavam por meio da presença-ausência daqueles. Que éramos assim. Pingos de gatos.

No finalmente, homem do volante, função: motorista, juntou-se a nós; veio conviver, existir. Alcançou degraus e, num pulo, tomou seu posto, seu pequeno trono. Na eminência de iniciar reinado - já havia acionado a máquina e nós tremíamos com o motor há segundos -,foi questão de dois moleques subirem no ônibus. Maltrapilhos, carregavam caixotes-de-engraxate. De olhos amargos, eram encardidos. Aproximaram-se com passo e linguagem. Num requebrar de corpo, traziam odor e palavrões, expressão, gírias da rua, da viração de todo dia. Por pur-favor-tia-deixa-nóis-passá, o cobrador, que era cobradora, consentiu passagem e eles se dobraram, redobraram, entortaram e espremeram, e venceram a catraca esguia. E logo foram marcando presença, farejando ambiente. Enchendo recinto de cheiros e grunhidos, eram um destaque. Reluziam. Sobrepujavam presença. Traziam a vida para os passa-passageiros - natimortos -, revolviam terra de ascos, medos, raivas e sente-mentos daqueles que eram pingos despertos pelo fator hostil, pela interferência externa que abalava a apatia, a sonolência. Interna. Daqueles que eram gatos.

Éramos. Planejávamos bote. Espreitávamos. E os moleques nem aí. Eriçados, mordidos que estavam, sacolejavam para o lá e para o cá. O ônibus nem havia partido, eles já faziam vento no nosso rosto. Iam e vinham. No corredor-passarela, exibiam-se num sem-fim-fugaz de deleite efêmero-eterno - raro. Sambavam. Na brincadeira de mão, na gozação pueril e cruel que mantinham reciprocamente [O deboche dos meninos da Rua é sempre doído e triste - cousa fantástica.], no alisa-bate-ri, a coisa foi esquentando. Entardecia...

E foi que os dentinhos tortos à mostra e o reverbera das gargalhadinhas ardidas cederam às feições fechadas e aos gestos truculentos. O espetáculo, com novos matizes, tornou-se terrível, hipnotizante. Os olhares daqueles que antes fugiam, se escondiam, fingiam indiferença, foram implacavelmente arrastados para a cena apresentada - sempre os mesmos atores sociais do palco mais humilhante. Os olhares torciam, regozijavam-se - eram público do ringue armado, uma platéia eloqüentemente muda. Segundos de êxtase. Foi então que. Vítima de um soco mais contundente, um deles perde o equilíbrio e desmonta-se no chão de alumínio. Blum enorme, fundo, alto. Pancada de ressonância. Ecos. Foi o sinal, o béééé que noticiava fim de ato e hora de revanche.

O cobrador, que era cobradora, nitidamente excitada e semi-erguida de seu banquinho, pôs-se a grunhidos guturais, estridências incontroladas. Tomou rédeas. Tomou de volta favor concedido e des-mandou, anunciando sentença: fora-os-dois. Imperativo. Com ponto de exclamação. Muitos. E todos os nós que éramos aplaudíamos epílogo perfeito, aprovávamos desfecho. Éramos um bravo! em uníssono interno. Satisfação geral e frenesi. Éramos.

Quanto aos dois, não contestaram pito, lei de abaixa-a-cabeça-vagabundo se respeita. O de pé já foi saindo, descendo, batendo pé nos degraus. O caído, desmontado, levantava corpo e descia cabeça - duas vezes vencido, e tantas... Em direção à porta, dirigia-se. Seria o fim de tudo, mas. Antes, voltou-se para os nós.

Quase vimos fisionomia [não víamos mais nada]. Horror. Derrotado, carregava acessório singular: filete líquido rasgava-lhe parte da face. Não vimos. Virou-se. Deu-nos suas costas, ninguém ouviu passo, flutuou para fora do ônibus e foi ter com a Rua.

Em instantes, éramos pingos. Sem mais cheiro-cor-sabor. O veículo arrancou e a vida ficou. Lá dentro, zumbis. Nós.

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