breve-brevíssimo ou aquele morre-não-morre

Na iminência do incêndio, o inominável já está à espreita. Uma precisão de dar vida a um que toca, machuca. E lá vai o demônio... embaixo da mesa, na ponta dos dedos, pelas costas, beiço colado ao ouvido esquerdo. De mãos dadas com o diabo, vou ao caminho de Deus. Re-bento. Antes de Maria cerzir as próprias fissuras, o batismo é consumado – a obra já nasce benzida pelo coxo. Fruto de vosso ventre maldito e da maldade de escrever. Ficamos assim: Deus é o significado, o diabo, o significante.

quarta-feira, 17 de novembro de 2004

 

Crônica oriental 01 [ou um kitsch "Amo Adjetivações"]

- livre(e lirica)mente adaptado de (e inspirado por) Crônica Oriental 01. JORDANI, Felipe. 2004. geocities.yahoo.com.br/f_jordani/blogover

Prontos para um recorte delicado?
Na capela do alto da montanha mais insigne e íngreme da microilha asiática mais perdida e, igualmente esquecida, do oceano Pacífico, encontravam-se cabecinhas nada hirsutas. Singela capela de aspecto respeitoso, como se fosse egressa de um filme de Kurosawa ou Imamura, talvez. No âmbito interno, corredor estreito, escuro. Nele, as cabecinhas nuas seqüenciam-se. São aprendizes, obedientes. Ao fundo, o monge-mor. Mestre Gafanhoto lança olhar severo e inspetor sobre os pequenos. E a imagem que seus olhos obtiveram foi a de uma continuação dupla e reta de esferas brancas e imóveis. Ah, seus pupilos. Deles, exalava o odor de banho que só os infantes - os pueris infantes - são detentores; com aquele quê de espuma, sabão e ingenuidade. Virou-se e, no instante que perdurou seu presto movimento, ouviu-se [Nota da "autora": esse é o momento em que me entrego e indago-lhes: como dizer isso de forma lírica? Como transformar um ato tão prosaico e reles num ato com ar de poesia? Mas que questões são essas, não é capaz de enxergar o óbvio? O óbvio: é provável que essa seja a cena mais lírica e sensível abordada por ti, autora ignara. O que é mais poético e tocante que um ato espontâneo de uma criança? Meus olhos brilham nesse momento... e corro agora rumo ao meu pequeno infante ... e o que se ouviu foi] um envergonhado e desajeitado flato. Foi aí que o excesso de gases no tubo digestivo do terceiro pupilo da segunda fila sonorizou-se e tornou-se evidente. As outras cabecinhas nuas não seguraram o riso abafado - ó, singelo escracho das crianças. Ó, imagem burlesca -, daqueles que escapam sem volta. Aquelas esferas, em formato de pomo, despidas de qualquer pêlo ou fio capilar, a despeito da nítida agitação provocada pelo ato solene - ah, o "cheiro destoante" -, mantinham um ar circunspecto advindo do traje uniformizado - vestiam túnicas branquíssimas -, remetendo a cenas seculares, incólumes ao desgaste do tempo e presentes num específico imaginário coletivo. Nisso, o Mestre, implacável, já anunciava o castigo. E o que se sucedeu foi que o agora célebre "terceiro menino da segunda fileira" teve de se postar frente ao grupo e entoar os versos da ducentésima primeira (?!) poesia do Grande Livro de Poesias:
Quando a folha cai
Quando o vento chora
Quando a vida pára
Quando o dia acaba

Ow, puxa, ele se equivocou no quarto verso.
Quando a folha cai
Quando o vento chora
Quando a vida pára
Quando o dia retorna!
De recompensa, recebeu uma dura cajadada de seu Mestre na pobre cabecinha nua - tão nua como as outras, mas agora tão dolorida e humilhada como nenhuma outra - e engoliu o choro que se avizinhava, uma enxurrada de lágrimas foi o que teve de conter. Retornou, encabuladamente derrotado, ao terceiro lugar da segunda fila... quieto, pálido. O desejo do bocejo e o peso nos olhos atingindo a todos denunciava o toque para se recolherem. E assim se fez a vontade divina: Mestre Gafanhoto ansiou por uma verdadeira noite de descanso às cabecinhas e cada qual rumou para seu dormitório destinado.

terça-feira, 2 de novembro de 2004

 

Flashs, Recortes ou Lapsos para uma Consciência Fragmentária


“Você gosta de homem?”
E foi assim que a menina rompeu o silêncio. Direta, inocente, curiosa, transparente. Era de se esperar. Esse tipo de indagação sempre surge nos momentos mais improváveis, nas épocas mais curiosas. "Deus é mesmo um cara gozador", ela deve ter pensado ao ouvir isso. E, depois de proferir dantescos urros e ofensas ao Homem, tratou de pensar em algo para responder à menina, tentando fazer tudo isso de forma natural, é claro. Enquanto codificava um raciocínio aparentemente complexo para que uma explicação plausível chegasse até a menina, mil imagens nasciam na mente. Espasmos céleres que se alternavam para a representação de um movimento, de uma trajetória. Como um filme, um musical. Sim, aqui é tudo muito surreal, baby.

“O velho Deus inventa a guerra...”
Nietszche ainda me paga, esse libriano safado, esse herege filho-da-puta. Me fez cristã em um mês: convicta. E ainda se fosse só isso... O maldito foi além: esfregou a Perfeição na minha cara, fez vir à tona meus mistérios lingüísticos, meus traumas barrocos. Tudo isso ao som das melodias catárticas e epifâncias. Zombou dos meus medos mais intrínsecos, humilhou minha consciência mais mascarada. Niet, essa contradição personificada, repleta de recalques, frustrações e doença: Niet é o barroco sem precedentes: a dialética precípua: o demônio anunciador, o anjo terminal: Niet é como o teólogo que tanto abomina: categórico, julgando-se superior à toda corja ínfima, o resto. Afinal, o resto é só humanidade...

“A Ética é uma vaca!”
O aforismo alegórico gritado fez sentido aqui dentro. Foi lançado com força - era um seta de direção premeditada -, veio destruindo tudo que estivesse no caminho, insano por chegar logo ao seu destino, por atingir seu objetivo e abrir a ferida. É que vocês precisam compreender um ponto importante. Dado o humor negro de Deus, as coincidências (as eternas malditas coincidências) são apenas frutos de um cotidiano surrealista, prole prosaica que encontra refúgio em vidas fadadas a serem líricas e, óbvio, surreais. Deus surge nas indiretas, no implícito, em cada silêncio perfeito, em cada amor infinito, em cada átimo sarcástico e em todo detalhe que significa tudo. Aqui, a banalidade é encarada como meio para o contato com o sagrado, ou seja, a epifania. E daí que aconteceu que Ele me mandou mais essa. Toma, idiota. Por que, afinal, o que é a Ética? Essa minha musa, esse meu algoz, essa minha Vaca.

“Mas eu não eu busco ser inovador. Eu sou.”
Uhhhh... Contundente. Perfeito: odeio falsa modéstia. Ele é mesmo tão barroco quanto eu. Um anjo caído, um anjo-prostituto, um anjo-cão... o meu anjo. Mas eu conto o que sucedeu após o comentário. Em seguida: soltei uma risadinha irônica, dessas que zombam de uma aparente pretensão. Ele não entendeu, ficou em silêncio. Ser inovador, excêntrico, maldito. E afirmar que se é tudo isso! Perfeito! Fiquei com a frase na cabeça, admirando o seu tom egocêntrico, sacana e também a coragem, a autoconfiança, mesmo que nada disso remetesse àquela figura singela. Dias depois, por telefone, foi solucionado o mal-entendido. Ele quis dizer que não buscava ser inovador, e sim que simplesmente era ele mesmo, inovador ou não. A oração "Eu sou" já encerra seu próprio sentido completo de ser. Simplesmente.

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