breve-brevíssimo ou aquele morre-não-morre

Na iminência do incêndio, o inominável já está à espreita. Uma precisão de dar vida a um que toca, machuca. E lá vai o demônio... embaixo da mesa, na ponta dos dedos, pelas costas, beiço colado ao ouvido esquerdo. De mãos dadas com o diabo, vou ao caminho de Deus. Re-bento. Antes de Maria cerzir as próprias fissuras, o batismo é consumado – a obra já nasce benzida pelo coxo. Fruto de vosso ventre maldito e da maldade de escrever. Ficamos assim: Deus é o significado, o diabo, o significante.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

 

dos outros, olhos de cão

Uma tentativa fracassada de decantação de experiência fílmica

(Entra o Diabo, acompanhado de três ou quatro demônios, carregando nas mãos correntes de ferro que passam pelo pescoço de Adão e de Eva. Uns os empurram, outros os puxam para o inferno. Outros aparecem dançando diante deles como para manifestar a alegria em virtude de sua perdição. Alguns, vendo-os se aproximar, apontam para eles, agarram e os jogam no inferno. Uma grande fumaça se eleva. Ouvem-se gritos de alegria e um barulho de caldeiras e caçarolas se entrechocando. Depois de alguns instantes os diabos saem e correm em todas as direções na praça, com exceção de alguns que continuam no inferno)*

DVD no aparelho, ajuste na televisão, play. Súbito: morri.

No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus

Na verdade, no princípio, foram as dores primeiras, tais quais as da menina violentada em processo de abortamento, depois vieram o medo, a culpa, a ânsia, o vômito, o choro sentido, avançaram as dores, a revolta e, num quando, faleci. Depois, ressuscitei para escrever as Palavras. Mas "a angústia continua".


As aspas são da mãe da adolescente estuprada à caminho da escola. A menina, agora grávida, recebe a permissão de interromper a gestação e se submete à bateria de exames e procedimentos médico-legais que possibilitam a expulsão do feto indesejado. Essa é uma das histórias que compõem o documentário O aborto dos outros, da cineasta paulista Carla Gallo, e que pontua todo o filme. Mas a narrativa não começa aí. À medida que os sons de hospital diminuem e o branco imenso vai dando lugar a imagens cada vez mais definidas, saímos de trás de um biombo, do esconderijo da vida real, e nos aproximamos da entrevista de uma garota sem rosto, mas com voz, cabelo, pele, a uma psicóloga. Durante o relato íntimo, o espectador invasivo é apresentado aos fragmentos deste corpo vitimado pela violência. A orelha de onde pende um brinco, o cabelo enrolado displicentemente por um prendedor de plástico, os ombros nus e parte das costas deixada à mostra por uma blusa de alça. Traço estilístico marcante – e mais e sobretudo: expediente de preservação da mulher que, paradoxalmente, revela tanto, o que acaba por se tornar recurso estético –: recortes de corpo que, em lances de metonímia, são o próprio corpo, que, por sua vez, é a própria mulher. O corpo como porta-voz do discurso feminino. "Como você tá se sentindo depois de tudo isso que aconteceu?" O silêncio é a resposta possível.

Já deitada, à espera das novas dores que induzirão o parto precoce, a menina executa lentamente um movimento de tirar e colocar o anel do dedo – essa é a imagem que preenche toda a tela –, aludindo a uma cópula – ou deve ser essa minha cabeça. E daí o mexer das pulseiras, a pinta embaixo da boca, a sobrancelha grossa. A mãe também não tem rosto, mas está ali inteira, por partes. Os dentes, a boca deformada pelo choro que fala ao telefone com um parente, pedindo por oração: "Eu sei que Deus é contra isso..."

E perguntou o Senhor a mulher:
Por que fizeste isso?


Na delegacia, antes de entrar com pedido de aborto, a mãe teve de ouvir de um escrivão: "Vocês não pensem que o aborto vai ser tão fácil assim. Primeiro porque é crime, segundo porque tem que autorizar... E até lá, ela já vai estar com seis meses e..."

E a mulher disse ao Senhor:
A serpente me enganou, e eu comi.


A cada quadro, um jato branco me invade, e conheço outra história contada por um par de olhos verdes. Um mês de sexo forçado, porque o marido não aceitou seu desejo de separação. Como ele não saía de casa, eles moravam com os pais dela, a mulher aceitou a "proposta indecente" por completo desespero. O sexo quase sempre acontecia acompanhado de muito choro. "E ele continuava". Em meio ao pesadelo, não usaram camisinha em uma das vezes e ela engravidou. Ele queria, numa tentativa de "segurar o casamento", ela obviamente não: seria "filho de uma violência". Apelou ao Cytotec, um dos mais conhecidos métodos abortivos, e após, o corpo seguia em pranto. Sangramentos excessivos, correntes. "O que está acontecendo dentro de mim?". Enquanto isso, descoberto o aborto, ele ameaçava denunciá-la. Outro jato. Sou catapultada.

Ainda no hospital, a adolescente me mostra seu caderno de desenhos. De um modo geral, motivos pueris de casas e árvores. Em um deles, uma grande maçã mordida. Pousa os dedos sobre a caixa de lápis-de-cor, desliza sobre alguns deles e finalmente escolhe um para continuar colorindo. Segue sonhando um mundo de traços e linhas mágicas. Conta para a documentarista que não sabe do pai, há muito ausente. Lembro que a mãe havia dito a psicóloga, num desconcerto, que a filha desejava ganhar uma Barbie de presente.

Às portas fechadas, um grupo de médicas monta um painel de argumentos que apóiam a decisão pelo aborto de uma mulher estuprada. Pelo mosaico de relatos, construímos um perfil, ainda que desfocado, daquela evangélica, meia-idade, que sentiu muita vergonha em contar a alguém sobre o ocorrido e, quando finalmente desabafa, é alertada por uma "irmã da Igreja" a procurar um médico. Não passa pela sua cabeça a possibilidade de uma gravidez, teme por alguma doença. Ao final das explanações, o médico pergunta se há algum indicador de "falsa alegação". Não há. Do lado de fora, a mulher aguarda sentada em uma penumbra do hospital; corpo encolhido, mãos nos joelhos, os pés metidos em sandálias simples que espalmam no chão.

Uma torneira pingando é tudo o que vemos ao ouvir o relato de uma mulher que passou por cinco abortos, quase sempre orquestrados por uma mãe de anjo. Em um deles, à procura de uma ajuda mais "profissional", pagou mais caro, mas o trabalho foi menos violento. Foi dopada e simplesmente apagou. “Eu morri”. Seu discurso, caracterizado pela desinformação, vai do riso ao choro. Inicialmente esboça uma risada, sem-jeito, como se não soubesse como agir com a própria matéria da narração ou como se soubesse, e o riso se originaria exatamente daí, da gravidade dela, para depois acabar em tom de arrependimento declarado, em lágrimas que não vemos com os olhos. Apesar de ter uma filha, fruto de uma gravidez desejada, anuncia uma solidão dolorida e a culpa por um crime, não do ponto de vista da lei, mas de outra ordem. "Eu sei que eu vou ter o meu castigo. Aqui se faz, aqui se paga. O castigo vai vir de Deus". A torneira não cessa de pingar.

À época, sem emprego, com dificuldade até para se sustentar, engravidou por descuido e decidiu pelo aborto. Uma noite toda vivendo um pesadelo que custou a passar. O corpo convulsionava, a temperatura despencou. Sentia-se tão gelada, mas tanto que "parecia que eu tinha morrido. Acho que eu morri". Passado isso, foi denunciada e ficou presa por semanas. Os braços inchados pela algema apertadíssima, a dificuldade em ir ao banheiro por conta do revezamento de policiais que a vigiavam. "Tantas mulheres fazem isso", diz o delegado, "eu não sei o que você tá fazendo aqui". Acabou sendo solta e, no momento da gravação, ainda sem entender a motivação da denúncia de uma pessoa tão próxima dela e dos seus. "E olha que ela também já fez aborto..."

A obra, basicamente do universo das subjetividades narrativas – dedicado "às mulheres que generosamente contaram as suas histórias", vozes vencidas como esta – que remetem diretamente ao objetivo, à realidade concreta, palpável, traz ainda um arcabouço de falas de profissionais dos campos do Direito e da Medicina que pontuam com dados técnicos, estatísticas, questões da bio-ética e da filosofia. Registra-se, e o registro só pode nos trair, é a sua função, 70 mil mortes por abortamentos em países em desenvolvimento que possuem leis restritivas. A condenação como um duplo fracasso, característica latente do aborto – o fracasso da sociedade, o fracasso do corpo – potencializada pela ineficácia de uma lei que aumenta riscos, culpas, discrepâncias.

Se fiz mal, sofro a punição: sou culpada, serei julgada por Deus. Errei gravemente diante de Deus e diante de você.

Uma discussão que passa pelas histórias individuais e pela História coletiva; pelas micro-realidades, fábulas femininas, que dizem respeito a um percurso fêmeo. Executando esse movimento, se aceitarmos uma história da trajetória da mulher (idéia que deve ser devidamente problematizada tendo em vista as múltiplas origens e os diversos contextos culturais), história vencida, esta história passa por uma história do corpo, cujo tomo central é atravessado pelo bólido utópico da autonomia. História, toda por ser escrita e posteriormente apropriada como direito – à história, ao corpo, ao desejo, ao deus –, construída com base na premissa de um corpo material e de um corpo simbólico, ou de uma dimensão simbólica do corpo, ambos expropriados. História de uma miríade de corpos de variados donos, de infinitos procuradores – o não-pertencimento de si.

Que ela seja submissa à sua autoridade e os dois à Minha vontade. Eu a formei de sua costela: ela não é uma estranha, nasceu de você. Modelei-a conforme seu corpo. Ela saiu de você e não de outro lugar. Governe-a pela razão.

Ao se despedir, deixando o hospital, templo do crime legitimado, a mãe da adolescente desconfia de um sofrimento que passa, já que o corpo segue sem aceitar. "A angústia continua. Não mudou nada. Eu continuo sentindo que faltou alguma coisa para fazer. Sentimento que não dá nem para explicar direito".



* Le jeu d’Adam

sábado, 14 de fevereiro de 2009

 

Des-honra.


A Patricia Misson




Ah, o movimento interior, o estardalhaço intrínseco a que entro em contato ao te permitir todas as noites.


Algo que não retenho nem compreendo, leiga e alheia que sou, me acorda na cadência das horas negras. Me sopra barbaridades no ouvido direito. Vem bulir de madrugada. É um espírito ruim e coxo, que debocha do meu pudor, da minha higiene íntima, das pregas intactas do meu cu.

Sou mosaico de retalhos, costuras, fissuras, arrombamentos. Acendendo duas velas, uma pra deus e a outra, irmanando-me com a primeira puta espancada desta madrugada, humilhada, corpo estilhaçado estendido no colchão úmido, boceta arrebentada pelo gargalo da garrafa de cerveja.

Principia num gelo apavorado que desce deslizando pelo dorso e pára no acento agudo e convexo da cervical, pedra fria que frita no lombo em chamas e depois chora. Um saber sem saber. Daí vem os cheiros dos fluídos todos mais o suor, o sebo da nuca e dos fios de cabelo pousados nos lábios. Um cio que rasga a noite da cidade. E então concebo presença.

Miríade de olhos invisíveis: abrem-se aos estalos, paulatinamente, espocam em diferentes pontos do espaço, luzes que descortinam a oferta de deleite; então escondida pela penumbra, é agora exposta no proscênio. E ficam a cuidar e a rodear, perfazendo uma mandala diabólica de êxtase. Vigiado, imóvel, um corpo vulnerável se revela na ribalta, ao sabor dos desejos da audiência sedenta, e, depois, alvo de vozes e toques, é objeto de um rito de cânticos momescos, um assédio suprasensorial.

Ergo-me em sobressalto e é tudo mansidão de repente, coexistindo apenas respiração e desvario. Urro com tudo do de dentro, insensata, tomada, arranhando a garganta porosa. E o olhar que me diz em silêncio, mesmo sem querer ser mensagem, quando contempla - porque eu sei que me vê -, é de uma eloqüência muda.

Em suspenso mantenho a noite. A vida toda por um momento de lucidez, de embriaguez; estar de fato imersa no Sentido. A poesia desse desespero, das lágrimas que me correm, fervilhosas, incandescentes e tudo num arrebatamento que experencio consciente, luminosa e, enfim, comovida com esse deus que me invade de todo, por dentro de mim. E avança, demoníaco. E o meu dentro é agora de oração, de prece comungada com um falo há muito excomungado, que me ocupa as dimensões todas, os orifícios – vermelhuscos, gelatinosos, imensas dilatações oceânicas que abrigam esse Senhor que me detém e rende.





















O diabo me rodeia. Meto-me à escrita, à procura de um Deus. Não sei o que fazer com essa mácula. As palavras começam a me despetalar

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

 
A Patricia Misson

E dizem que ela ia balançando a sainha que subia e descia nas coxas azeitadas. Umas pernas que sambavam, meu Deus. Um passo mais assim e já mostrava as dobras, os culotes caprichados, os sulcos e todas essas coisas que as mulheres de verdade têm. As têmporas molhadas, os fios negros umedecidos pelo suor dos movimentos de há pouco. Amorenada, de beiços e tudo, e uns olhos de. E dizem que ia. No rebolado do andar, ainda guardava no corpo encharcado de rum o ritmo diabólico da dança, tinha quê de santeria. A pele trazia o fartum dos charutos que pendiam das bocas dos senhores rotundos. Na memória, as melodias todas e a orgia dos corpos no salão – mosaico de balés infernais.
E dizem que vinha da casa de show mais suja e famigerada da Velha Havana, cortando o silêncio sonolento daquelas alamedas, acordando espíritos e entidades. Despertava a recente manhã daquelas ruas antigas, povoadas de bares e mulheres envelhecidas que contavam as histórias dos tempos outros, coloniais – relatos enfeitiçados pelo tempo.
Em cadência sincopada, tomou a rua do Obispo, onde os deuses do comércio ainda não ardiam, febris. Chegando ao porto, de onde antigamente se partia e vinha da Europa, sentiu. Num simplesmente, sentiu-se. Percebeu-se e descobriu que era.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

 

Exílio


Rebuliço. Dezenas de cadeiras se arrastam, cadernos se agitam. Meninas enrolam os cabelos úmidos em coques desiguais, meninos os desfazem. Risinhos. Depois, gargalhadas. Bochechas febris. Suor nas têmporas. Ofegantes, os pupilos suspiram, egressos da quadra. Agora na sala, os bocejos se avizinham - perspectiva: avalanche de horas chatas.
O lufa-lufa é laconicamente interrompido pelo som metálico, cada vez mais próximo, dos saltos de Tia Wanda. Não havia dúvida: aqueles tlec-tlec sempre puderam ser identificados há anos-luz. Tlec. Tlec. Tlec. Tlec. À medida que o barulho algoz se intensificava, o silêncio também aumentava. Tlec, tlec, tlec, tlec. Naquele momento, apenas um som existia. Tlec, tlec, tlec, tlec. Ela vinha. Tlec, tlec. Na porta, um início de sombra. Tlec. Tlec.
Ei-la.
1,50m de altura, inflacionados pelo sapato alto, vestiam saias longas e puídas. Os óculos e a gengiva se destacavam. Havia ainda a ausência de um dente lateral, percebida apenas nos dias de sol. Eu tinha certeza: Tia Wanda era um desenho animado.
A professora rapidamente distribuiu figuras somente com contorno, sem qualquer cor ou preenchimento. Eram animais, flores, planetas. Todos pálidos pelo branco do papel. "Mãos à obra!". Giz de cera, tinta, pincel.
Mas, decepção, a minha figura era só um menino. Nada desses bichos que povoam os mares ou as florestas, nem mesmo plantas carnívoras e gulosas, ou ainda objetos espaciais. Era só um menino, desses que eu via todos os dias e que eram inconvenientes e cheiravam mal. Torci o nariz. Passada a frustração, atirei-me à empreitada.
Ao cabo de 20 minutos, obra de arte se via. Um garoto pintado de marrom-terra com cabelos verde-alface caracterizava meu desenho. Expunha-o em cima da mesa, esperando pelo sinal de entrega. Só que Aldo, o menino da carteira ao lado, observava aquela mancha marrom-verde com ponta de riso nos lábios. Não se contendo, comunicou a vizinhança. Logo, um grupo já ria efusivamente e sussurrava comentários aparentemente muito engraçados. Olhava eu o meu menino-borrão e me afeiçoava ainda mais a ele. Vontade de beijá-lo. E se ele tivesse gosto, cheiro, fosse macio? E se saísse do papel e me envolvesse em abraço? Qual seria o tom de sua voz, o contorno de seu sorriso? Num lance, pousei minha cabeça sobre o papel e lá fiquei. E, me parece, a aula acabou.


domingo, 28 de janeiro de 2007

 
A intervenção da vez invadiu um vagão da linha 1 azul de metrô e vinha pela voz murcha e inerte da mulher maltrapilha que segurava uma criança no colo, na cadência típica dos pedintes já gastos das locomoções públicas, nos versos vomitados em toada única. Se gastos estão, gastos também são os ouvidos dos usuários escaldados de tantos dias seguidos de tantos dias seguidos de tantos dias que, de tantos, não passam de quaisquer, mais uns, mais uns momentos, iguais, de igual existência precária, corpo e alma fatigados - punhados de cenas que se repetem. E eles que, na luta por um espaço entre abarrotados vagões de períodos-de-pico, na briga pela sobrevivência até o fim do trajeto, que sonha pela conquista do bate-cartão, eles.
E ela ia cantarolando ladainha, a mulher-esfarrapo: os olhos fundos, foscos, famintos; a pele manchada, ressequida, de um preto cinzento. Com a criança pequenina, que quase some nas mãos dela, compõe personagem de Portinari. Cândida, a voz passeia lenta, longa, lenga, lenga, lenga. Serpenteia pelo vagão, vai, volta; reverbera nos nossos ouvidos; caminha entre os assentos e os usuários; invade conversas, monólogos, solilóquios, diálogos interiores; remete a momentos; revolve lembranças, emoções, causando... interferência. Vozes que convergem, se imiscuem. Ruído.
- Pááára cu'issu.
Vozes sobrepostas, ritmos dissonantes.
- Eu ti conheço, cê fala todo dia a mesma coisa.
Vozes que conflitam, buscam espaço comum entre os espectadores.
- Essi filhu nem devi sê-sêu.
A um metro de distância, o homem-fantasma. Empoleirado nos apoios do vagão, metralha a cantoria alheia. Aos resmungos, enfraquece discurso da mendicância. Estações que passam, se alteram, outras...

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

 

Reminiscências...

- Que quer dizer dedo do meio?
- Manda tomar no cu.


O espelho refletia curiosa pintura: com tronco envergado, pernas erguidas e arcadas, uma pré-adolescente examina sua rosa íntima, com labirintos e sulcos desabrochados, calcando sua análise no reflexo que obtinha da imagem. Dedilhava-se. A pele flácida e viscosa se avermelhava a cada toque mais veemente, a cada riscar de unha, a cada investida mais profunda. Os dedos, já umedecidos de substância pegajosa, não se cansavam. Ocupada que estava em sua empreitada, não percebia que eu a observava, entediada.
Sempre que ia em casa, Clô ritualizava sua visita, antes das brincadeiras de bonecas e das imitações de cenas noveleiras de casais, dirigindo-se até o quarto de mamãe pra se olhar. Dizia que era de precisão esse hábito. (As mulheres de sua família viviam sob a sina de uma doença vaginal hereditária, e ela deveria freqüentemente se tocar a seco para verificar qualquer mudança no local.) Dizia também que na própria residência não poderia fazer o exame, já que não gozava de privacidade por lá e que só se sentia à vontade na minha presença.
Um dia, pediu favor. Aproximei-me (sempre mantinha certa distância, com medo de molestá-la). Clô explicou-me que não poderia mais prosseguir sozinha em sua prática. Que, como nunca surpreendia qualquer alteração, deveriam ter seus dedos se acostumado àquela textura. Agora, ela precisava de outro meio para o toque. Solicitou ajuda. Explanou rapidamente acerca dos novos procedimentos que o exame necessitava, orientando-me na maneira pela qual eu deveria movimentar minha língua na região. Dessa forma, a partir de então, que nova pintura o espelho passou a refletir.


Já criança, Menininha tinha lá suas obsessões. Tinha desejo de Deus. E como se excitava no ambiente sagrado! À época do Catecismo, deveria ir religiosamente à Igreja, todos os domingos. Quando faltava - por melancolia, preguiça, sono ou cólica –, flagelava-se com pensamentos de expurgação. Como ser perdoada? Nesses casos, passava a semana inteira como uma santa. Era afável e justa com os demais, tinha bons olhos para todos, compreendia atitudes questionáveis, isolava-se no silêncio, privava-se de companhias e excessos. (Que tudo passasse depois.) Só não podia, absolutamente, resistir ao quarto escuro. Lá, sozinha e acompanhada de demônios, fazia o diabo consigo mesma.
A despeito de que, nas semanas normais, em que não faltava com a palavra e com a freqüência, a vida seguia bem menina. Menininha, menina que era, vivia a se envaidecer, a se ajeitar, a se colorir e descolorir. Rezava ao pé da cama, escondia-se no cobertor, tomava café com torradas, sorria, pensava em bicho-papão e na professora. E, quando do domingo, experimentava ápice.
Antes de adentar solo divino, deixava-se surpreender pela imponência arquitetônica. Fazia o sinal da via crucis e ia. E como. Na eminência de se acomodar em um dos balcões, já vivenciava as alterações de seu corpo. Umedecia-se toda. Os sons, o eco, o cheiro eram os primeiros a incomodá-la. Depois, as Imagens. As Imagens. E Menininha seguia as horas matinais domingueiras. Esforçava-se para manter os lábios em movimento a fim de que se simulasse oração; mantinha feição séria com intuito de denunciar devoção. A Missa seguia lá fora. Lá dentro, labaredas. Um fogo que ardia – imagens e fantasias. Uma quentura entre as pernas. Era Deus?

domingo, 7 de maio de 2006

 
"Recomendava aos iniciantes na difícil arte de escrever: 'menino, aterra esse mar e mata essas gaivotas. O resto demonstra alguma coisa apreciável. Quando você principiar a escrever, tome um trem aqui, viaje até a Central de 2ª classe, e terá assunto, não para um pequeno conto apenas, mas para um livro de muitas páginas'."
(João Antônio, acerca do conselho de seu mestre Lima Barreto)

Ao Felipe Jordani


Diferentemente do contato rotineiro com os transportes públicos, era tudo calmaria no ponto final da linha 457 Metrô Penha-Taboão Paraíso. Brisava. Culpa do horário. Pouca gente a andar por aí, pela cidade feia, àquela hora da tarde. Da estação suja, do instante morto, da vida cinza dos meninos encardidos e das pombas pedintes. Pois que, da sujeira, da sobre-vida, do pálido daquela espera de partida do ônibus, auferia-se alguma beleza. Invenção, na certa, daqueles que se habituaram a ver poesia em tudo. Gatos pingados que éramos, pausávamos a vida ali, sentados no assento gruda-gruda, olhando o nada que eram aquelas quatro horas vespertinas. Um fio de vida escapava d’alguma respiração - notada em decorrência de um suspiro perdido -, do trec-trec de uma embalagem de salgadinho ou dum toque-susto de celular. Era assim. Olhares infinitos, perdidos n’algum pensamento vogante para além do vidro fosco, ensebado. Pensamentos suspensos que conversavam por meio da presença-ausência daqueles. Que éramos assim. Pingos de gatos.

No finalmente, homem do volante, função: motorista, juntou-se a nós; veio conviver, existir. Alcançou degraus e, num pulo, tomou seu posto, seu pequeno trono. Na eminência de iniciar reinado - já havia acionado a máquina e nós tremíamos com o motor há segundos -,foi questão de dois moleques subirem no ônibus. Maltrapilhos, carregavam caixotes-de-engraxate. De olhos amargos, eram encardidos. Aproximaram-se com passo e linguagem. Num requebrar de corpo, traziam odor e palavrões, expressão, gírias da rua, da viração de todo dia. Por pur-favor-tia-deixa-nóis-passá, o cobrador, que era cobradora, consentiu passagem e eles se dobraram, redobraram, entortaram e espremeram, e venceram a catraca esguia. E logo foram marcando presença, farejando ambiente. Enchendo recinto de cheiros e grunhidos, eram um destaque. Reluziam. Sobrepujavam presença. Traziam a vida para os passa-passageiros - natimortos -, revolviam terra de ascos, medos, raivas e sente-mentos daqueles que eram pingos despertos pelo fator hostil, pela interferência externa que abalava a apatia, a sonolência. Interna. Daqueles que eram gatos.

Éramos. Planejávamos bote. Espreitávamos. E os moleques nem aí. Eriçados, mordidos que estavam, sacolejavam para o lá e para o cá. O ônibus nem havia partido, eles já faziam vento no nosso rosto. Iam e vinham. No corredor-passarela, exibiam-se num sem-fim-fugaz de deleite efêmero-eterno - raro. Sambavam. Na brincadeira de mão, na gozação pueril e cruel que mantinham reciprocamente [O deboche dos meninos da Rua é sempre doído e triste - cousa fantástica.], no alisa-bate-ri, a coisa foi esquentando. Entardecia...

E foi que os dentinhos tortos à mostra e o reverbera das gargalhadinhas ardidas cederam às feições fechadas e aos gestos truculentos. O espetáculo, com novos matizes, tornou-se terrível, hipnotizante. Os olhares daqueles que antes fugiam, se escondiam, fingiam indiferença, foram implacavelmente arrastados para a cena apresentada - sempre os mesmos atores sociais do palco mais humilhante. Os olhares torciam, regozijavam-se - eram público do ringue armado, uma platéia eloqüentemente muda. Segundos de êxtase. Foi então que. Vítima de um soco mais contundente, um deles perde o equilíbrio e desmonta-se no chão de alumínio. Blum enorme, fundo, alto. Pancada de ressonância. Ecos. Foi o sinal, o béééé que noticiava fim de ato e hora de revanche.

O cobrador, que era cobradora, nitidamente excitada e semi-erguida de seu banquinho, pôs-se a grunhidos guturais, estridências incontroladas. Tomou rédeas. Tomou de volta favor concedido e des-mandou, anunciando sentença: fora-os-dois. Imperativo. Com ponto de exclamação. Muitos. E todos os nós que éramos aplaudíamos epílogo perfeito, aprovávamos desfecho. Éramos um bravo! em uníssono interno. Satisfação geral e frenesi. Éramos.

Quanto aos dois, não contestaram pito, lei de abaixa-a-cabeça-vagabundo se respeita. O de pé já foi saindo, descendo, batendo pé nos degraus. O caído, desmontado, levantava corpo e descia cabeça - duas vezes vencido, e tantas... Em direção à porta, dirigia-se. Seria o fim de tudo, mas. Antes, voltou-se para os nós.

Quase vimos fisionomia [não víamos mais nada]. Horror. Derrotado, carregava acessório singular: filete líquido rasgava-lhe parte da face. Não vimos. Virou-se. Deu-nos suas costas, ninguém ouviu passo, flutuou para fora do ônibus e foi ter com a Rua.

Em instantes, éramos pingos. Sem mais cheiro-cor-sabor. O veículo arrancou e a vida ficou. Lá dentro, zumbis. Nós.

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