breve-brevíssimo ou aquele morre-não-morre

Na iminência do incêndio, o inominável já está à espreita. Uma precisão de dar vida a um que toca, machuca. E lá vai o demônio... embaixo da mesa, na ponta dos dedos, pelas costas, beiço colado ao ouvido esquerdo. De mãos dadas com o diabo, vou ao caminho de Deus. Re-bento. Antes de Maria cerzir as próprias fissuras, o batismo é consumado – a obra já nasce benzida pelo coxo. Fruto de vosso ventre maldito e da maldade de escrever. Ficamos assim: Deus é o significado, o diabo, o significante.

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

 

Reminiscências...

- Que quer dizer dedo do meio?
- Manda tomar no cu.


O espelho refletia curiosa pintura: com tronco envergado, pernas erguidas e arcadas, uma pré-adolescente examina sua rosa íntima, com labirintos e sulcos desabrochados, calcando sua análise no reflexo que obtinha da imagem. Dedilhava-se. A pele flácida e viscosa se avermelhava a cada toque mais veemente, a cada riscar de unha, a cada investida mais profunda. Os dedos, já umedecidos de substância pegajosa, não se cansavam. Ocupada que estava em sua empreitada, não percebia que eu a observava, entediada.
Sempre que ia em casa, Clô ritualizava sua visita, antes das brincadeiras de bonecas e das imitações de cenas noveleiras de casais, dirigindo-se até o quarto de mamãe pra se olhar. Dizia que era de precisão esse hábito. (As mulheres de sua família viviam sob a sina de uma doença vaginal hereditária, e ela deveria freqüentemente se tocar a seco para verificar qualquer mudança no local.) Dizia também que na própria residência não poderia fazer o exame, já que não gozava de privacidade por lá e que só se sentia à vontade na minha presença.
Um dia, pediu favor. Aproximei-me (sempre mantinha certa distância, com medo de molestá-la). Clô explicou-me que não poderia mais prosseguir sozinha em sua prática. Que, como nunca surpreendia qualquer alteração, deveriam ter seus dedos se acostumado àquela textura. Agora, ela precisava de outro meio para o toque. Solicitou ajuda. Explanou rapidamente acerca dos novos procedimentos que o exame necessitava, orientando-me na maneira pela qual eu deveria movimentar minha língua na região. Dessa forma, a partir de então, que nova pintura o espelho passou a refletir.


Já criança, Menininha tinha lá suas obsessões. Tinha desejo de Deus. E como se excitava no ambiente sagrado! À época do Catecismo, deveria ir religiosamente à Igreja, todos os domingos. Quando faltava - por melancolia, preguiça, sono ou cólica –, flagelava-se com pensamentos de expurgação. Como ser perdoada? Nesses casos, passava a semana inteira como uma santa. Era afável e justa com os demais, tinha bons olhos para todos, compreendia atitudes questionáveis, isolava-se no silêncio, privava-se de companhias e excessos. (Que tudo passasse depois.) Só não podia, absolutamente, resistir ao quarto escuro. Lá, sozinha e acompanhada de demônios, fazia o diabo consigo mesma.
A despeito de que, nas semanas normais, em que não faltava com a palavra e com a freqüência, a vida seguia bem menina. Menininha, menina que era, vivia a se envaidecer, a se ajeitar, a se colorir e descolorir. Rezava ao pé da cama, escondia-se no cobertor, tomava café com torradas, sorria, pensava em bicho-papão e na professora. E, quando do domingo, experimentava ápice.
Antes de adentar solo divino, deixava-se surpreender pela imponência arquitetônica. Fazia o sinal da via crucis e ia. E como. Na eminência de se acomodar em um dos balcões, já vivenciava as alterações de seu corpo. Umedecia-se toda. Os sons, o eco, o cheiro eram os primeiros a incomodá-la. Depois, as Imagens. As Imagens. E Menininha seguia as horas matinais domingueiras. Esforçava-se para manter os lábios em movimento a fim de que se simulasse oração; mantinha feição séria com intuito de denunciar devoção. A Missa seguia lá fora. Lá dentro, labaredas. Um fogo que ardia – imagens e fantasias. Uma quentura entre as pernas. Era Deus?

Comentários:
Texto veiculado na edição 10.7 do Catarse.
 
A partir de hoje, esse blogue volta a receber comentários.
 
(Hum, a partir de hoje? Então tá.) Olha, Daniela, vim só reforçar o meu elogio que fiz no Cronópios a tua, se posso realmente dizer assim, objetividade ao relatar a Flip (que sim, sim, senhorita, me encanta relatos objetivos que encantam). E vim mesmo sabendo do teu alimentar e não-alimentar entre parêntesis por aqui e aí a gente se depara com este texto e: "Ai, depois, depois." Que por agora eu não estou lá com aquele espírito de me demorar em relatos ficcionais de íntimos, que também encantam, mas...rs. Mas por agora só estou de espírito de reforçar elogio. Então, tenha-se elogiada.
 
Eu gosto. Me soa qualquer coisa. Mas eu gosto. Há um tom irônico ali que não consigo evitar. Eu gosto. E isso deveria ser o suficiente.
 
Então, eu já te disse que gostei muito desses textos, não disse?
Aproveitei que você finalmente criou coragem de dar a cara para bater e vim aqui só para afagar.
 
Parece que voltei a freqüentar este blog numa época de abertura, o que é bom.

Dani-senpai continua escrevendo magnificamente bem, como sua comparsa Paula. Vejo que a temática de seus posts segue parecida com os últimos que havia lido. Imagino que a Penélope, se lesse isso, provavelmente entregaria o programa que comanda na sua mão.

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Não, ela não faria isso. O dinheiro fala mais alto. Mas no mínimo se sentiria incompetente... :)
 
Muito, muito bom.
Preciso começar a freqüentar missas para analisar casos semelhantes. Sempre vai aparecer uma...
 
Às vezes é bom deixar a vida se manifestar.
 
Como diria Aristóteles, em um momento de reflexão profunda: "Da hora, meu."
 
uau. [pra tudo]
 
Gostei fácil, fácil, fácil...
Voltarei
(Tô adorando esses blogs da listinha do Maurício!)
 
Fascínio sedutor, um encanto porno-santo. A poesia aqui entremeada simultaneamente me causa espasmo e acalanto. Ótimo!
 
olá
devias continuar a vetar os comentários...

xi-coração
herc
 
MELHOR CONTO EROTICOS Q EU JAH LI!!!! VC ESCREVE MT BEM TEM FUTURO....PARABENS!!
 
Que lindo. Voltarei mais vezes.
 
Você escreve cada vez melhor. Envelhecem as suas letras como um bom vinho. Dá para perceber que melhoram conforme as suas novas experiências ensinam-lhe sobre o calor de novas centelhas divinas. Desconfio que você já sabe o que quer e que já descobriu ser capaz de desenhar o seu destino. Isso é segredo de poucos que possuem a Arte dentro de si. Você consegue senti-la e transmiti-la com corajosa maestria. Imagino-te como um vinho mesmo, raro, envelhecido muitos e muitos anos. Escreverás não melhor, pois em forma isso é impossível. Mas escreverá mais, pois o conteúdo será saboroso.

Beijo,
Leo
 
Oi. Fazia um tempo que não atualizava, né? Pelo menos no rss que eu tinha assinado.
Achei deliciosos estes textos. Sua maneira de narrar, prosaica sem ser muito coloquial, sabe conduzir bem para onde você quer. Vou continuar frequentando aqui. Parabéns, continue escrevendo. Beijo.
 
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